Livros

Amando a China pelo Livro do Mo Yan

Uma delícia de viagem no tempo e no espaço é a leitura do livro “Mudança”, do escritor chinês Mo Yan. Ele foi desafiado a escrever sobre as grandes transformações na China ao longo das últimas três décadas. E ele mesmo, a princípio, achou que o tema era demasiado amplo, muito além da capacidade que ele oferecia e, então recusou a proposta. Mas diante da insistência do desafiante, que ao final de muitas negociações, pediu para ele escrever “o que quiser e como quiser”, Mo Yan aceitou a empreitada. E nada como oferecer liberdade a um escritor!

Mo Yan nos apresentou uma bela história autobiográfica ficcional. É certo que alguma coisa sempre se perde na tradução, por melhor que sejam os tradutores. Se eu quiser mergulhar mesmo no colorido chinês eu teria que aprender a língua! Mas o que mais me agradou foi a linguagem extremamente coloquial que o autor utilizou em contraste com a densidade dramática das histórias narradas.

Como explicar a fome de escola do garoto que teimava em frequentar as aulas mesmo que o professor o tenha expulsado, por diversas vezes? Quando você acha que a história é essa, vem o Mo Yan e te mostra que, ao mesmo tempo, é possível admirar a coragem do colega que largou a escola e nunca mais voltou. Há potência nos dois gestos – o de insistir em buscar instrução na escola, em abandonar a escola e buscar a vida.

Há um pouco de Brasil na China. Existe o garoto pobre que procurou o exército simplesmente porque era o que dava melhor condição social. Existe a preocupação de tecer boas relações sociais com as pessoas certas para se conseguir oportunidades de crescimento. Existe a pessoa conseguir dinheiro pela esperteza, e não necessariamente pela instrução acadêmica ou excesso de trabalho. Existe o trabalhar pela sobrevivência, não necessariamente pelo talento que você acha que tem e gostaria de uma oportunidade para desenvolver. Existe o casamento pelos motivos mais variados (quanta coisa cabe no que chamam de amor) – existe violência doméstica. Existe o inesperado, aquilo que ninguém pode prever.

Mas por favor, não pensem vocês que existe um lugar comum com essas minhas linhas apressadas. Esses grandes temas são universais, mas a abordagem do Mo Yan é incrivelmente… eu escrever neutra, mas ele coloca muita subjetividade, tem muita entrega. Então. Acho que ele consegue ter um distanciamento. Como se ele enxergasse as coisas de longe, sem a afobação que costumamos sentir quando passamos por momentos ruins – mas ao mesmo tempo sem chegar a conclusões fechadas sobre os acontecimentos. Parece que o autor sempre deixa uma porta aberta para o tempo depurar mais um pouco aquilo que ele acabou de escrever.

Bom, essas foram as minhas sensações. Espero que não tenham se chateado com possíveis “spoilers”. Caso queiram ler pra saber se viajei demais na interpretação, fica a dica: o nome do livro é “Mudança”, o autor é Mo Yan, tradução Amilton Reis, editora Cosac Naify.

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