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Mulheres no trabalho: escolaridade das mulheres nem sempre se traduz em melhores salários (parte 2)

De acordo com a pesquisadora Cynthia Semíramis os índices do relatório sobre desigualdade de gênero Global Gender Gap apontam que a alta escolarização não está se revertendo em poder econômico e político para mulheres. Mesmo com boa formação, elas ainda são minoria na política e em cargos de direção, e recebem cerca de um terço a menos que os homens para realizar o mesmo trabalho que eles. No post da Cynthia também há pontos importantes sobre desigualdade de raça, preconceitos contra orientação e identidade sexual – leia aqui o post dela sobre educação feminina.

Para este post, gostaria de fazer um recorte especificamente sobre a remuneração desigual para o mesmo trabalho, mesmo com a maior escolaridade das mulheres. Quais os fatores que levam a essa disparidade? Vários estudos feministas trazem explicações boas e diversificadas. Vejamos algumas delas:

– Mulheres buscam empregos temporários ou de menor jornada pois culturalmente elas teriam a responsabilidade sobre os trabalhos domésticos (cuidar da casa, dos filhos, familiares, parentes necessitados) e precisam encontrar ocupações que possam ser conciliadas com esses serviços. Um estudo da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) mostra que, no mundo, a mulher ainda gasta quase o dobro do tempo em trabalho doméstico do que o homem

– Mulheres buscam formação em áreas profissionais que tradicionalmente têm baixa remuneração (educação infantil, por exemplo, é exercida por um grande número de mulheres). Uma das explicações é que elas são incentivadas, desde crianças, a optar por profissões tidas como femininas, e desestimuladas a acreditarem que podem seguir carreiras vistas como masculinas (que são predominantemente exercida por homens, engenharia, por exemplo)

– Mulheres não são ensinadas a pedirem aumento – são ensinadas a serem submissas, mesmo nos empregos.

– Mulheres que por acaso conseguem driblar as duas barreiras citadas (buscam empregos de jornada mais longa e carreiras “masculinas”) ainda precisam vencer preconceitos diversos: o empregador pode partir do princípio de que toda mulher em período fértil quer engravidar, então deixa de dar promoção para uma mulher para não correr o risco de sua funcionária se afastar por 4 ou até 6 meses (licença maternidade) – fora as ausências para cuidar de filho doente. O empregador parte do princípio de que mulher não consegue liderar ou “conseguir o respeito” dos funcionários homens que lhe serão subordinados – e aí escolhe um homem para um cargo de melhor remuneração.  O empregador parte do princípio de que mulher que pede aumento é uma mulher que na verdade não merece aumento. O empregador pode simplesmente não querer contratar mulheres pela “cara” delas, pela raça, etnia, orientação sexual, transgeneridade e preconceitos sociais diversos dirigidos às mulheres.

E vocês, mulheres, podem me perguntar: mas Amanda, então se eu quiser ter remuneração decente eu preciso mandar um homem lavar minha roupa e limpar minha casa, trabalhar período integral e buscar carreiras masculinas!?

Amigas, essa pergunta é boa. Talvez vocês sigam corretamente o manual feminista de sobrevivência na selva do mercado e isso lhe trará dinheiro e, enfim, pão na mesa, um teto todo seu. Mas e aí? Você individualmente consegue “chegar lá”, mas e as outras mulheres?

O feminismo é só isso, é se adaptar à escala de valores que está colocada? É colocar as mulheres em postos de comando, postos esses que nunca existirão para todas, só para as que melhor se adaptam? A meritocracia, tal com está colocada, onde os “melhores” terão mais direitos do que os “piores”? O que define qual trabalho é melhor ou pior?

Bom, acredito que tão importante quanto desconstruir preconceitos contra a mulher (lugar de mulher é onde ela quiser, na profissão que ela escolher, com ou sem filhos, com capacidade de fazer qualquer coisa que um homem faz) é derrubar o mito da meritocracia, essa escala de valores que permeia o acesso ao trabalho.

A busca por esses “méritos” (que se confundem com a busca por sobrevivência) faz com que a gente não veja as opressões mais imediatas… Como por exemplo acreditar que a baixa remuneração de um(a) professor(a) do ensino primário “é justa”, porque “é fácil” ensinar, “qualquer pessoa faz”, “não há nada de especial nisso” e todas as justificativas bizarras pra justificar o salário baixo. Certo político disse que “professora não ganha pouco, é mal casada”, avaliem o sexismo contido nessa opinião.

O feminismo, acredito, pode lutar pela melhor remuneração do trabalho da mulher onde quer que ela esteja, seja numa profissão “tipicamente feminina”, seja numa profissão onde os homens dominam. Todas as ações que vierem a melhorar as condições de vida das mulheres (todas as mulheres, cis, trans*, negras, indígenas…) são bem-vindas.

Há um longo caminho para buscarmos uma melhor remuneração feminina: é preciso acionar os sindicatos, pressionar empresas a adotarem políticas de equidade de gênero e educar para a equidade em todos os espaços. Lutemos também para que a jornada de trabalho reduzida seja vista como uma busca por qualidade de vida e respeito ao ser humano, não para sobrar mais tempo para o trabalho doméstico, não como uma questão de “demérito”, “preguiça das mulheres” ou “falta de ambição” a ser punida com baixo salário, condições precárias e instabilidade. Vamos buscar melhores condições de trabalho para todas, jornada reduzida não pode ser privilégio de quem pode escolher e nem pode ser justificativa para se pagar pouco.

*Este foi o segundo texto da série Mulher no Trabalho. Aguardem o terceiro texto!

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2 pensamentos sobre “Mulheres no trabalho: escolaridade das mulheres nem sempre se traduz em melhores salários (parte 2)

  1. Pingback: Mulheres no trabalho: redução de jornada sem diminuição de salário (parte 3) | Luz do Cerrado

  2. Pingback: Mulheres no trabalho e os possíveis impactos das medidas provisórias 664 e 665 (parte 4) | Luz do Cerrado

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